Era uma semana fria, com muita chuva. Como um bom disco de jazz pede. Frio e whisky. Não tinha um centavo no bolso e descia vazio a rua dos prazeres, destinado ao maior deles naquela situação: a releitura da maior obra prima de jazz de todos os tempos! E nem era ele quem pensava isso, só achou legal quando leu o título num blog: A releitura da maior obra prima de jazz de todos os tempos: Kind of Blue, do insano Miles Davis, entrada gratuita. De fato não conhecia muitos discos de jazz, mas dentro do que conhecia, gostava muito dele.
O disco comemorativo de cinqüenta anos recebeu o Grammy de Melhor Notas para Álbum, na categoria jazz, na última segunda feira: Francis Davis para Kind Of Blue: 50th Anniversary Collector’s Edition[Columbia/Legacy Recordings]
Não tinha muita fila no Studio Sp. Terminou o cigarro, atirou a bituca ao ar e entrou. Uma garota loira de dreads e vestido curto florido o seguiu com os olhos até a porta, mas com certeza procurava outra pessoa. Sentou na arquibancadinha no fundo, no canto sem luz. A música começou logo. O baixo….. o piano…. devagar…. como o insano desenhou a pergunta “so what”. Aos poucos, a intensidade aumenta e vem os primeiros acordes que dizem “iiiiiiinsano! iiiinsano! iiiiiinsano!”. Mas não era um trompete, e sim uma guitarra que Junior Boca tocava com seus músicos. O piano substituído por um teclado. O baixo era o clássico, que responde as dedadas violentas e leves com a mesma sobriedade e melancolia de um bar de jazz no final dos anos cinqüenta, quando Miles Davis, já consagrado, gravou Kind of Blue com Julian Addlerley no saxophone alto, John Coltrane no saxophone tenor, Bill Evans no piano, Paul Chambers no baixo e Jimmy Cobb na bateria.
As experimentações de Boca comtenporaneizavam a suavidade e o delicado de “all blues”. As garotas também colaboravam, mas poucas pareciam interessante. A que tentava esquecer pulava nota a nota do baixo, cada batida da bateria, e vinha na direção dele. Dançava bem ali na frente, e quanto mais enchia a cabeça de nuvens, mais elas pareciam ter o desenho dela.
Era um vestido leve, cinza, que vibrava um pouco quando ela batia a ponta da sapatilha vinho no chão. Percorria toda a vibração junto com afinco, e nem sabia se era vinho mesmo a cor, não dava pra ver direito. È de minha cabeça, escolho a cor, pensou. E pensou também que ela poderia sorrir. Quando ela se virou, foi atravessada pelo frenesi da guitarra de Boca, no solo de Flamenco Sketches, e não mais apareceu. “Que doidera cara!” disse o músico, e depois voltou pras ultimas musicas.
Antes da ultima, a menina passou bem em frente a seus olhos. Pensou que podia faze-la voltar e sentar ali, curtir um jazz, beber uma cerveja e voltar pra casa pra dormirem juntos pela manhã, até a tarde do outro dia. Mas viu que essa era a real, e que já estava longe demais pra ele pensar em tomar uma atitude. Bundão, pensou. Ou não, talvez seja melhor ficar longe dela.
O projeto continua na terça feira que vem, às 21 horas, de graça, na rua Augusta, 591, no centro da cidade de São Paulo. Depois, o projeto passa o mês de março no Clube Berlin, as terças feiras, na rua Cônego Vicente Miguel Marino, 85, na Barra Funda (ao custo de 12 reais). As nuvens e as meninas são por sua conta.

B


0 respostas Até agora ↓
Ainda não há comentários... chute o balde preenchendo o formulário abaixo.